sexta-feira, 20 de abril de 2012

(India) O sorriso da India

Rishikesh, India
Agosto 2009

Sepúlveda escreveu que "A Pátria de uma pessoa é onde ela se sentir bem". Não podia concordar mais. Pátria não vem no passaporte, é uma coisa de coração. E as coisas de coração não se escolhem sentem-se. Sinto-me feliz e grata por ter a liberdade de escolher a minha Pátria. O Brasil é a minha Pátria, foi onde eu nasci. Lá vivi por um ano, talvez um dos meus felizes da minha vida. Lá poderia viver outra vez e penso que isso talvez aconteça. É a minha terra natal.
Portugal é a minha Pátria. É onde cresci e tenho vivido. É o lugar onde quero para já, continuar a viver, e ao qual me alegra sempre regressar quando viajo. É a minha casa.
Mas se a nossa Pátria é onde nos sentimos bem, acho que a Índia começa a ser também um bocadinho, a minha Pátria. Até porque nos últimos anos tenho passado sempre pelo menos um ou dois meses do meu por aqui.



Sou apaixonada pelo sorriso da India. O sorriso dos Indianos é único e muito peculiar. Todos sorriem das crianças e velhos, homens e mulheres, pobres e ricos.

Por aqui nunca se faz um sorriso que não seja retribuído. Se esboçarmos um subtil sorriso para quem quer que seja rapidamente teremos a retribuição num enorme e aberto sorriso indiano.


Sorrisos que vem de dentro, e que nos fazem pensar porque é que deixamos de sorrir. Ou simplesmente porque é que sorrimos tão pouco?

Porque não sorrimos mais uns para os outros? No trânsito, no trabalho, ou simplesmente na rua para alguém que não conhecemos de lado nenhum?

Na cidade para onde venho estudar há um mendigo que como tantos na Índia, tem uma deficiência nas pernas. Esta deficiência não lhe permite esticar as pernas; estas estão sempre cruzadas, impedindo que ele se levante e obrigando-o a viver ao nível do chão, arrastando-se e utilizando a força dos braços para se movimentar.

Este mendigo passa o dia encostado no mesmo sítio, algures na ponte de Ram Jhula. Tem sempre uma lata perto de si, esperando receber algumas caridosas rupias. Não precisa de pedir. A sua deficiência é suficientemente atroz e visível para quem passa. A sua deficiência hedionda é a sua ferramenta de sobrevivência neste mundo e
a cultura indiana suporta estas pessoas. Para grande parte dos Indianos é importante ajudar quem está abaixo, numa situação pior (e Deus sabe que na Índia há sempre uma situação ainda mais abaixo). Por outro lado, as rupias que se dão podem sempre valer uns pontinhos de karma….

Os turistas continuam o suporte. As rupias que se dão para se puder fechar os olhos e não pensar mais em algo tão cruel.



Este mendigo tem o sorriso mais lindo do mundo. É um Indiano de feições muito bonitas. Cabelo preto, pele escura que contrasta com o branco dos seus dentes.
Ele é novo, penso eu. Terá sequer a minha idade?
Ele sempre me sorri quando eu passo na ponte. Sorri-me espontaneamente. Nunca me pediu uma rupia que fosse, nunca me indicou a sua lata, a sua deficiência. Mantém a sua cabeça erguida e sorri-me. Quando eu retribuo, o seu sorriso abre-se ainda mais num sorriso feliz.
Como pode este homem tirar de dentro de sim um sorriso que expressa tanta felicidade?
Aceitação?
Alienação?
Um homem cuja situação desde sempre e para sempre será a mesma, uma deficiência hedionda que o limitará a qualquer possibilidade de uma vida feliz, um trabalho, uma família, um futuro
Como pode este homem ter este sorriso, dia após dia, todos dias.

Ou deverei perguntar antes porque o perdemos nós? Será que afinal não é ele que está certo? Porque à primeira adversidade da vida perdemos o sorriso, perdemos a alegria acusamos a vida , a justiça divina ou outro qualquer ser humano à nossa volta do nosso infortúnio e miséria.
Quão injusto isto é tantas vezes. Para nós próprios, para todo o planeta.

Parece-me que o dom da vida é suficientemente maravilhoso para que, nem que seja de vez em quando, sorrirmos a alguém. Sorrimos com o coração. Abrimos o coração através de um sorriso lindo, sincero.
Talvez o que recebermos de volta seja suficiente para mudar o nosso dia.



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